A DESFORRA
Arnaldo Giraldo
- Canalha.
Saiu assim, sem força, sem xingamento. Era apenas uma constatação.
- Canalha? Mas como canalha? - eu perguntei. Ela, porém, já esgotara toda a conversa. A
nossa velha discussão: ela queria um filho e eu a mandei à merda. Um filho? E quem é que queria
filho? Mas eu sabia o que ela estava tentando fazer: queria me prender, me enredar. Nossa relação já
não ia tão bem naquela época, talvez por isso ela começasse a achar que precisava de outro tipo de
âncora. Eu já não me importava muito em chegar às três ou quatro da madrugada, vindo da boêmia.
Às vezes chegava já dia claro. E nunca admiti bronca não! Ela estava pensando o quê? Eu sou mais
eu e não admito mulher me dizendo o que fazer. Sangue latino, italiano, sabe como é? Não como o
dela que é frio, bisneta de alemães que é. Já tinha sido muito bom o nosso relacionamento, mas agora
só havia encheção de saco. O negócio do filho ficou rondando como uma sombra escura e as
relações eram sem nenhuma sensualidade e eu já nem estava mais aí com aquele corpo frio,
mecânico, sem vontade, submisso. Eu tinha a Tininha no bordel, sempre disposta, sempre alegre. Pode
até ser mentira o comportamento da Tininha, mas é mentira bem-vinda, que faz bem para o ego da
gente.
Juro que não gosto de bater em mulher, mas aquela bofetada, dada com a mão toda aberta, foi
uma das coisas mais plenas que já experimentei na vida. Já tinha dado umas pequenas bofetadas na
Mariona, lá no bordel, mas lá não tinha graça. Quando Valquíria me disse que estava grávida de
quatro meses aquilo veio de dentro. Veio com toda a raiva por ela não ter feito o que eu tinha
mandado. Então era assim? Queria me prender, me enredar, acabar com a minha liberdade, não era?
Quem é que mandava na porra da casa, afinal?
Ela fora para o quarto e ficara lá, sentada na beira da cama, choramingando.
- Você vai abortar! - disse-lhe com crueldade.
- Não - respondeu-me calmamente. - Não vou não.
Tomei a decisão que precisava tomar. Não iria ficar discutindo bobagem com ela:
- Pegue suas coisas e suma daqui! - eu disse , superior.
Ela me olhara de um modo que não era nem raiva nem indignação. Olhara-me apenas como se
constatasse que tinha razão no que pensava de mim. Em todo caso, ela levantou-se e começou a
juntar suas coisas. Lembro-me que a deixei em paz, surpreso com a pronta aceitação da situação por
parte dela.
- Tem algum dinheiro para mim? - perguntou ao sair.
Dei-lhe cinqüenta reais, satisfeito por ela ter aceito tudo sem nenhum espalhafato.
Lembrei-me de tudo isso porque estou agora aqui, na maternidade. Não, não pense que estou
arrependido de merda nenhuma, não! Filho? Ainda sinto um calafrio percorrer a minha espinha, só
em pensar na perda de liberdade. É apenas curiosidade.
- Por que aqui, senhor - disse a enfermeira quando ele deu o nome de Valquíria. - Mas só pode
olhar de fora e não pode falar com ela.
***
Ela estava radiante e ele procurou um lugar onde ela não o visse pelo vidro da enfermaria. As
enfermeiras começaram a trazer as crianças para a amamentação e....
Ele ficou petrificado.
"O que é isso? O que significa isso? ...a criança é escurinha! ... o filho dela é negro!!!"
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